Sexta-feira, Março 31, 2006

O meu cérebro numa tina

Hoje em dia, a medicina moderna permite manter vivo alguém ligado a uma máquina. O cérebro precisa de oxigénio, temos respiradores artificiais, bombas para manter o fluxo sanguíneo, unidades de hemodiálise que limpam o sangue, etc.

Ou seja, teoricamente, podia ter o meu cérebro numa tina, ligado a máquinas, mantendo-me assim, vivo.

E não seria só o cérebro. Queria também o nariz, os olhos e um ouvido. A boca era giro também, mas não sei se seria muito prático.

Tudo, dentro da tina, com formol, ou outro produto conservador.

Podia ser arrumado num canto, ou ser posto em cima de uma mesa, deixado ali, estúpido, a olhar para onde ficasse virado. Uma vida reduzida a uma tina e à visão das coisas, distorcida pela refracção do vidro e do liquido.

A grande vantagem era mesmo a ausência de dores no corpo, as unhas por cortar, o cabelo grande ou mesmo o rabo sujo, quando não se têm aquele metro extra de papel higiénico. Seria o mais aproximado da liberdade.

No entanto, tenho algumas dúvidas, pois nem tudo seria um mar de rosa…

Imagino-me com comichão no nariz, e sem mãos para coçar. Imagino-me com vontade de dar um espirro, e não ter pulmões para a explosão de ar. E como é que eu limpava a remela dos olhos?

Dormir também estava fora de questão, pois sem pálpebras não conseguia aquele cantinho escuro dentro de “mim” para adormecer.

Mas de resto, parece-me bem. Tenho que experimentar. Só de me imaginar a viajar de avião na mala de mão de alguém, deixa-me em pulgas!!!

(Aerogel)